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Depressão e redes sociais: prós e contras de falar abertamente sobre a doença

Ainda segundo o BIEsp, um dos suspeitos confessou ter furtado R$ 8 mil da casa de um empresário.

Publicada em 12/01/2022 às 11:54h - 22 visualizações

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"Eu só estou aqui, de pé, porque desde que afundei meus amigos organizaram um rodízio pra ficar sempre gente na minha casa", escreveu o youtuber Felipe Neto. "A depressão é uma doença da mente, como a gastrite é uma doença do estômago."

O maior influencer do Brasil detalhou recentemente seus problemas com a saúde mental em uma série de aparições nas redes sociais. Desabafos públicos sobre o tema, que chegam a dezenas de milhões de pessoas, também já foram feitos por outros influenciadores, como o comediante Whindersson Nunes.

Antes restritas ao âmbito privado, conversas sobre depressão, ansiedade, bipolaridade, síndrome do pânico e outros transtornos têm se livrado da atmosfera de segredo e constrangimento do passado para ajudar a romper estigmas e estimular pessoas a buscar tratamento.

"A gente acabava encarcerando o sofrimento, a loucura, as contradições humanas na vida privada. Algo como 'não traga isso aqui para a rua, deixe lá no seu quarto, na sua casa, na sua família, mas não divida isso, não torne isso um assunto coletivo", diz o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano.

Para ele, há um movimento positivo em se mostrar mais vulnerável, inclusive do ponto de vista cognitivo: "Nossas vulnerabilidades que antes precisavam ser escondidas na vida privada são uma matéria-prima para o laço com o outro. Porque pode ser de cuidado mútuo, pode ser de reflexão conjunta, pode ser de partilha de afetos".

Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que o impacto de revelações públicas sobre o enfrentamento da depressão é "basicamente na diminuição do estigma. Parece pouco, mas ele é brutal, é uma das principais causas para uma pessoa não buscar tratamento".

O psiquiatra afirma que esse atual momento "nem de longe significa que o estigma deixou de existir. Há o preconceito, que passa por um componente afetivo, emocional, e se expressa em posturas como 'eu não me sinto bem ao estar perto de uma pessoa com esse problema'. E há o estereótipo: um aspecto racional, cognitivo, materializado em achar que se conhece exatamente o comportamento de alguém, por exemplo, com síndrome do pânico".

O que as pesquisas dizem?

Alguns estudos já mostraram resultados benéficos quando personalidades de alcance na internet falam sobre saúde mental.

Uma pesquisa examinou os efeitos sobre homens negros nos Estados Unidos depois que o rapper Kid Cudi expôs seus problemas com depressão.

A análise da repercussão no Twitter aponta que as revelações de Kid Cudi ajudaram a engajar no debate sobre saúde mental um perfil populacional muitas vezes sujeito a pressões do ideal de masculinidade – que historicamente trata a depressão com termos como "frescura".

Já um trabalho de cientistas dos EUA e de Taiwan focou em microcelebridades (referências em nichos específicos, como games) que abordam seus problemas emocionais em lives no YouTube e na plataforma Twitch.

Falar do tema ajuda os seguidores a perceberem os riscos da depressão. Faz também, segundo o estudo, com que essas microcelebridades pareçam mais autênticas – embora surjam dúvidas entre o público sobre a credibilidade delas como porta-vozes do assunto.

Mas o pesquisador brasileiro Felipe Giuntini, da empresa Sidia, detectou algo diferente sobre os efeitos dessa conversa na internet.

Em seu trabalho de doutorado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos, ele formulou um sistema de inteligência artificial que analisou posts de 415 mil participantes da maior comunidade sobre depressão do site Reddit. O estudo contou com o suporte do departamento de psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar)

"Nós notamos que os usuários pioraram seus sentimentos no ambiente de suporte mútuo", afirma Giuntini, que utilizou um período de 10 anos para avaliação das postagens.

"Os usuários que entraram com depressão leve saíram com depressão moderada. E os usuários que entraram com uma depressão moderada evoluíram para um quadro mais grave. Não notamos casos de melhora."

A pesquisa sugere que ambientes como esse, em que pacientes de depressão trocam experiências, deveriam contar com especialistas em saúde mental no papel de moderadores. Para Giuntini, "não adianta você apenas agrupar pessoas com depressão. A coisa não vai melhorar".

Para o psicanalista Christian Dunker, essa cultura da conversa nas redes sociais ainda está se consolidando.

"Acho que é um fenômeno amplo, geral, mas que ainda está sobre o impacto da novidade. Nós ainda estamos formando, vamos dizer assim, uma cultura de avaliação sobre as produções em redes sociais. A gente vê fenômenos de regulação disso. Por exemplo, o cancelamento ou a superpopularidade de alguns influenciadores."

Paula Sibilia, professora de estudos de mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio, e autora do livro O Show do Eu: A Intimidade como Espetáculo diz que "a relação destes fenômenos com o crescente uso das tecnologias digitais de comunicação e informação é direta e evidente".

No entanto, ela considera que são "transformações socioculturais bem complexas que vêm ocorrendo nas últimas décadas, muito profundas e significativas, que estão sendo acompanhadas e alavancadas pela invenção e rápida adoção de dispositivos técnicos adequados para a sua canalização".

A professora da UFF observa que "tem ocorrido não apenas um aumento dos diagnósticos de transtornos psiquiátricos como a depressão, a ansiedade e o pânico, mas também o reconhecimento da legitimidade (e inclusive do prestígio) desse tipo de sofrimento. Os problemas de saúde mental, portanto, vêm ganhando visibilidade e dignidade, motivando até um certo 'orgulho' de quem ousa assumir publicamente que os padece".

Isso aparentemente se conecta com a questão da autenticidade e com outros elementos do ecossistema das redes sociais – como a indústria dos influenciadores – que se tornam parte inseparável do cenário descrito acima.

"Na sociedade contemporânea, a vulnerabilidade se tornou um critério ou um capítulo do que a gente poderia chamar de indiciamento de autenticidade. Aquele que mostra suas dificuldades, que compartilha seus limites, aparece como alguém mais real, como todo mundo", diz Dunker, em uma conclusão semelhante à da pesquisa dos cientistas dos EUA e de Taiwan sobre microcelebridades.

Para Sibilia, "o eu de cada um é incessantemente trabalhado para se tornar um produto ou uma grife atraente, desdobrando toda sorte de estratégias de comunicação".

O teórico de mídias sociais e sociólogo Nathan Jurgensen afirma "que não se consegue entender a cultura da confissão hoje sem estabelecer uma relação com uma gamificação das métricas".

"A personalidade é uma moeda. A fragilidade é uma commodity", diz ele, que também é editor-chefe da revista norte-americana sobre cultura e tecnologia Real Life.

Mas o psiquiatra Martins de Barros, do HC de São Paulo, diz que o saldo é positivo a partir de todo esse cenário que vem se formando.

"Quando as pessoas se abrem, elas diminuem a ignorância, elas levam informação para o bem. Nem sempre da maneira mais precisa, mas colocam o assunto na pauta, aumentam o debate e diminuem o estigma. Quando se começa a ver pessoas produtivas, sejam artistas ou gerentes de banco, falando 'eu me trato', isso ataca os principais obstáculos ao tratamento.

G1. 




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